Artigo · 29 de outubro de 2026 · generalvalue.eu
A floresta que ninguém gere
O que aprendi ao dirigir a primeira empresa pública florestal de Portugal e porque é que a General Value trata a terra, a saúde e o financiamento como um só trabalho.

Passei a maior parte da minha vida profissional a lidar com a terra portuguesa, na região em que nasci e vivi até aos 36 anos. Essa região, conhecida como Pinhal Interior, tem uma história de ligação à atividade pecuária e florestal desde tempos imemoriais. Foi aqui, e com as pessoas que aqui nasceram e vivem dela, que iniciei a minha vida profissional: como professor e a trabalhar em múltiplos projetos locais de administração, organização e ordenamento do território, como consultor e líder de projetos de desenvolvimento local e, mais recentemente, assumindo a liderança da primeira empresa pública florestal do meu país.
Como Deputado no parlamento, eleito pela minha região, como Governador Civil de Leiria e, mais tarde, como Secretário de Estado da Proteção Civil, vi os incêndios do lado de quem os combate e das famílias que vivem com o que eles deixam. Ano após ano, a causa de fundo mantém-se a mesma: despovoamento, envelhecimento populacional e, portanto, terra que ninguém está a gerir.
Em 2018 tornei-me o primeiro Presidente e CEO da FlorestGal, a primeira empresa pública florestal de Portugal, com sede em Figueiró dos Vinhos, no coração da área que ardeu brutalmente em junho de 2017. No meu mandato trabalhámos em mais de 25 concelhos, gerimos cerca de 15.000 hectares e lançámos projetos de recuperação em cerca de 3.000 hectares ardidos em 2017.
Aprendi o que funciona e quanto caminho ainda falta fazer.
O problema não é falta de floresta, nem de dinheiro. Mais de 85% da floresta portuguesa é privada, repartida por centenas de milhares de proprietários. No centro e no norte, muitas parcelas têm menos de um hectare. Muitos proprietários são idosos, alguns emigraram e vivem em Lisboa ou no estrangeiro, e a maioria já não sabe ao certo onde ficam e quais os limites das suas propriedades.
Ninguém consegue gerir áreas florestais que não se conseguem juntar para atingir uma dimensão que torne as explorações economicamente viáveis. Assim, a terra fica abandonada e a natureza, que nunca se cansa, vai tomando conta dela, gerando enormes quantidades de matos, arbustos e espécies invasoras que, ano após ano, se vão acumulando e constituindo o combustível ideal para um país com as nossas características climáticas, até que um período mais seco e quente cria as condições para o fogo e a tragédia.
No plano burocrático, o Estado fez a sua parte. A lei obriga os proprietários a manter limpas as faixas à volta das casas, das aldeias e das estradas, e as câmaras podem substituir-se a quem não cumpre e cobrar-lhe a limpeza. Os serviços florestais gerem, supostamente, as grandes faixas de gestão de combustível, procurando criar descontinuidades e reduzir o impacto dos incêndios. Há fundos europeus e nacionais para reflorestar, prevenir incêndios e reorganizar a paisagem. O que falta é quem faça a ligação: alguém que junte os proprietários vizinhos, faça o plano de gestão, encontre o financiamento, faça o trabalho no terreno e o continue a fazer, ano após ano.
É esse o trabalho que lidero na General Value. Uma floresta gerida a 360°, ou seja, em todas as suas vertentes.
Uma floresta bem gerida rende de várias formas ao mesmo tempo. A cortiça do sobreiro, tirada de nove em nove anos ao longo de dois séculos. A castanha, o pinhão e a resina. O pastoreio, que controla o mato e dá trabalho aos pastores. A madeira, o carbono e as faixas de gestão de combustível que protegem as aldeias, as casas e os próprios povoamentos florestais. Nenhuma destas fontes, sozinha, torna uma floresta rentável. Somadas, na mesma exploração, sob uma única gestão, podem torná-la uma fonte de riqueza, como já o foi num passado não muito longínquo.
Mas estas intervenções têm de ser bem financiadas, e por isso o nosso trabalho começa pelo que chamo consultoria estratégica: olhar para todas as vertentes de um projeto ao mesmo tempo.
Para um proprietário, uma associação, uma cooperativa, uma câmara municipal ou um fundo de investimento, isso significa o modelo de gestão, o plano de financiamento, os fundos europeus e nacionais a que o projeto pode concorrer, e a realização de due diligence aos ativos florestais que já existem. Trabalhamos de formas diferentes consoante o caso: uma análise curta antes de uma decisão, um plano completo, ou a participação como parceiros no próprio projeto.
Da minha experiência, retiro a conclusão de que a questão da agregação não pode ser equacionada sem uma perspetiva de financiamento. Esta abordagem é mais decisiva para projetos florestais novos e mais inovadores do que a silvicultura tradicional, mesmo quando se usam as melhores práticas nesta atividade. O valor acrescentado é relativamente baixo e o maior volume não fica no território. Ou seja, produzimos e geramos riqueza, mas deixamo-la ser transferida para outros territórios. Costumo dizer que os nossos territórios florestais são "barrigas de aluguer" de várias indústrias que pouca riqueza deixam às populações locais.
Mas há uma segunda razão para a General Value juntar a floresta e os projetos de longevidade na mesma empresa.
O meu sócio Stephen Watson escreveu, no nosso primeiro artigo, sobre o que uma pequena vila ou aldeia do centro do país fez pela sua saúde. Os lugares onde as pessoas vivem mais tempo são lugares com terra saudável à volta: sombra, água limpa, comida produzida perto, caminhos para andar e vizinhos para conviver. Uma floresta gerida é esse tipo de lugar, uma verdadeira comunidade.
Uma floresta abandonada gera aldeias vazias, aumenta brutalmente o risco de incêndio, constitui um problema ecológico grave e um desperdício de riqueza inaceitável.
O nosso lema diz isto em três palavras: longevidade, riqueza florestal, saúde.
Por isso, quando olhamos para um resort de longevidade ou para uma comunidade para viver uma reforma tranquila, olhamos também para a floresta e o território à sua volta. E quando olhamos para uma propriedade florestal, perguntamos se ela pode também acolher um retiro, trilhos para caminhar, ou uma razão para as famílias jovens se estabelecerem e criarem novas atividades e usos destes espaços excecionais, que a natureza nos coloca à disposição e onde a qualidade de vida é a regra. Assim os saibamos usar.
Se é proprietário florestal, se gere floresta por conta de outros, ou se está à frente de uma autarquia, de uma associação ou de uma cooperativa detentora de áreas florestais que tem de manter seguras e pretende rentabilizar, estamos disponíveis para o ajudar. O interior de Portugal pode ser um bom lugar para investir, viver e envelhecer com qualidade de vida.
Para isso, precisa que as suas florestas sejam geridas em termos modernos, mas com a mesma qualidade, aproveitamento e propósito com que os nossos antepassados o fizeram, e bem, durante séculos.
Esse é um desígnio central na estratégia e na ação da General Value.
Fonte
Publicado originalmente em generalvalue.eu, 29 de outubro de 2026.
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